Certo
dia, um jovem pombo voava sobre os musgos dos telhados de casarões do século
XVIII, em meio ao centro de uma grande cidade. Era fim de semana, e às
atividades comerciais que pulularam ao longo da semana, já deixaram
transparecer os habitantes dos grandes centros.
Do alto de uma
estátua de um velho general, a ave divisa um velho calvo, sentando em um banco
de madeira, a jogar comida no chão da praça vazia. Era o mesmo senhor que
sempre o alimentava nos finais de semana. Cada dia tinha o seu fornecedor de
alimento. Não havia alternativas. O cardápio era o de sempre. Alpiste. E o dono
daquele restaurante improvisado já esperava por seu único freguês.
Eis, no
entanto, que, durante sua refeição ordinária, algo que nunca antes vira
aconteceu. Um outro velho, exatamente igual ao primeiro se aproximou. Sim, era
exatamente igual, calvo, imberbe, com um sorriso peculiar e óculos
retangulares, com o mesmo terno cinzento e os mesmos sapatos. O segundo velho
se aproximou lentamente e, de súbito, tentou chutá-lo, mas sua agilidade de
pombo se esquivou bem daquele golpe. Após esse ato vil, o segundo velho
cumprimentou o primeiro, “Como vai, Foucault?!”, “Vou bem, amigo Foucault!”, os
dois se abraçaram, sentaram no banco e começaram a conversar alegremente.
Ainda um pouco
atordoado pelo golpe, nosso amigo pombo se afastou. Mas então, o pior
aconteceu: um terceiro velho, também igual aos demais apareceu, passou por ele
e não fez nada. E quando a pequena ave tentou fugir, viu que havia um quarto. Então
voou. E viu que aquela praça estava repleta de Foucaults.
O jovem pombo
viu que alguns deles conversavam com alegria; outros, tristes, andavam cabisbaixos
pelos becos escuros; alguns, bêbados, dormiam na calçada; outros se abraçavam e
conversavam; outros trocavam socos e pontapés; havia aqueles que trocavam
beijos a apalpes; e aqueles que, de diversas maneiras, faziam sexo na praça pública.
E vocando
baixo pela praça, ele recebeu mais chutes e mais alpiste. Mas, não. Aquela
multidão de Foucaluts o deixava confuso. O falatório, os gritos, os risos, tudo
isso o atordoava. Assim ele voou para longe e para o alto.
Desde então,
nunca mais aquele jovem pombo retornou àquela praça. Quando se pode beber a água
da chuva, é possível ficar um certo tempo sem comer.
Nenhum comentário:
Postar um comentário