Durante o início da Primavera, o calor começa a invadira os dias, prenunciando o Verão, mas as noites continuam frias, para lembrar o Inverno. E como ela ainda é uma estação muito seca, as manhãs surgem nebulosas. Depois, a neblina de dissipa e o calor vem.
Foi em uma dessas manhãs que eu acordei naquele seis de Setembro. O calor, que chegara havia algumas horas, me fizera suar demasiadamente sob meu espesso cobertor de inverno. Acordar dessa forma é desagradável. Confuso, fui até o espelho do banheiro e, limpando o vapor, vi que parecia desidratado, minha pele parecia seca, mais do que o normal. Mesmo assim, vi que era necessário sangrar. E assim, o dia começou, com sangramento. Não gosto de sangrar desse jeito, mas ela gosta que eu sangre, e eu precisava disso, por ela.
O resto da manhã e o almoço foram impublicavelmente ordinários. Minhas feridas doíam e me traziam a esperança de o meu sofrimento haver de ser recompensado. Minha recompensa seria a morte. O vislumbre da morte suscitara o meu martírio. Mas eu não morreria só. Mataria, levaria alguém comigo. E não apenas uma vez, eu mataria várias vezes, numa orgia de sangue e morte.
Parti ao encontro da minha vítima. Fui até sua casa. Encontrei-a sangrando, ela me olhava já ciente do nosso fado. Eu, por minha vez, tinha certeza que ela buscava a morte muito mais do que eu. No entanto, ela me olhava de modo servil e amedrontado, o que aumentava ainda mais a minha crueldade.
"Olha pra mim! Você sabe que vai morrer! Por que tamanha surpresa?! Aceite seu fado e curta sua morte! Prometo a você que ela será o mais sangrenta possível..."
"Estou já sangrando, amor. Não me mate!!"
Aquela foi a minha primeira e última fala do dia. Dali em diante, desaprendi a falar, a ler, escrever e todas as formas humanas de linguagem. Enxerguei apenas minha vítima e meu banquete, a cada minuto mais raivoso daquele olhar.
Começamos nossos assassinatos com violência. Aí então, a verdade se relevou: ela me matou. Eu sabia, sabia que a insanidade dela era tão maior que a minha que ela me mataria cedo assim, fazendo-nos perder tempo. Mas morrer faz parte do processo.
E tantas vezes matamos e morremos. E nos ferimos e fizemos jorrar nosso sangue. Brindamo-lo e bebemo-lo e cálices de fogo. Jamais houve cenário mais aterrorizante que aquele. Corpos e vísceras misturados, o chão encharcado de sangue.
Como era de se esperar, ela morreu mais vezes que eu. De certo modo, isso me deixa satisfeito, pois cumpri meu pequeno ofício assassino. Matando, eu faço minha vítima viver, pois quanto mais morremos, mais vivemos. Viva a morte! Vamos beber nosso sangue e banquetear sobre nossos cálidos corpos! Matar e morrer quantas vezes forem necessárias, pois só assim chegaremos à vida.
sexta-feira, 21 de novembro de 2014
domingo, 15 de junho de 2014
Por aquele criado por lobos
Certo
dia, um jovem pombo voava sobre os musgos dos telhados de casarões do século
XVIII, em meio ao centro de uma grande cidade. Era fim de semana, e às
atividades comerciais que pulularam ao longo da semana, já deixaram
transparecer os habitantes dos grandes centros.
Do alto de uma
estátua de um velho general, a ave divisa um velho calvo, sentando em um banco
de madeira, a jogar comida no chão da praça vazia. Era o mesmo senhor que
sempre o alimentava nos finais de semana. Cada dia tinha o seu fornecedor de
alimento. Não havia alternativas. O cardápio era o de sempre. Alpiste. E o dono
daquele restaurante improvisado já esperava por seu único freguês.
Eis, no
entanto, que, durante sua refeição ordinária, algo que nunca antes vira
aconteceu. Um outro velho, exatamente igual ao primeiro se aproximou. Sim, era
exatamente igual, calvo, imberbe, com um sorriso peculiar e óculos
retangulares, com o mesmo terno cinzento e os mesmos sapatos. O segundo velho
se aproximou lentamente e, de súbito, tentou chutá-lo, mas sua agilidade de
pombo se esquivou bem daquele golpe. Após esse ato vil, o segundo velho
cumprimentou o primeiro, “Como vai, Foucault?!”, “Vou bem, amigo Foucault!”, os
dois se abraçaram, sentaram no banco e começaram a conversar alegremente.
Ainda um pouco
atordoado pelo golpe, nosso amigo pombo se afastou. Mas então, o pior
aconteceu: um terceiro velho, também igual aos demais apareceu, passou por ele
e não fez nada. E quando a pequena ave tentou fugir, viu que havia um quarto. Então
voou. E viu que aquela praça estava repleta de Foucaults.
O jovem pombo
viu que alguns deles conversavam com alegria; outros, tristes, andavam cabisbaixos
pelos becos escuros; alguns, bêbados, dormiam na calçada; outros se abraçavam e
conversavam; outros trocavam socos e pontapés; havia aqueles que trocavam
beijos a apalpes; e aqueles que, de diversas maneiras, faziam sexo na praça pública.
E vocando
baixo pela praça, ele recebeu mais chutes e mais alpiste. Mas, não. Aquela
multidão de Foucaluts o deixava confuso. O falatório, os gritos, os risos, tudo
isso o atordoava. Assim ele voou para longe e para o alto.
Desde então,
nunca mais aquele jovem pombo retornou àquela praça. Quando se pode beber a água
da chuva, é possível ficar um certo tempo sem comer.
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